quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Dois olhos cheios



Fui assim presenteada...E reproduzo aqui as doces palavras da pequena notável Maíra, que também se emocionou ao encontrar-se com a memória:

"que bom voltar a nossos excessos, aos sopros pronunciados, reverberados pelas mãos pés cabelos.

que bom o vento no peito e a solidão compartilhada, silenciosa.

que bom ouvir de viés, adivinhando, sussurrando o próximo encontro.

que bom ter o ar entre as mãos, o pulso resfolegante, vermelho.

que bom o som contínuo como colar que nunca se esgota de ter mais pedras.

que bom, que bom, que bom".


terça-feira, 19 de agosto de 2008

Entre ouvidos





Estou em Maceió, lugar de vento forte, areia movediça e jangadas de camarão. Por aqui, espia-se o estrangeiro de rabo de olho, e logo se percebe que o povo é reservado, servil, e certamente avesso à turbulências de espiríto.
Sentada numa mesa de plástico, de frente pro mar da Pajuçara, a Copacabana local, olho pro tempo que insiste em boiar no relógio, deslizando nos números para fugir da pressa dos ponteiros. O tempo aqui é diferente e, pelo tempo que fiquei observando, comprovo que a verificação não é devaneio de uma viajante. Os jovens estudantes de teatro que participaram das oficinas que oferecemos dentro do Projeto Palco Giratório - Pai nosso que estás no Sesc, Amém! - parecem ter mais vaidade que angústia, ilusão que noção. O tempo para eles não urge, ele espera. Bobeira, mas nesta minha passagem pelo Nordeste, que incluiu três dias nos meio-irmãos Juazeiro e Petrolina, entendi mais Lenine, Conselheiro e Dorival Caymmi. Não sei se é mesmo fingimento, mas que tem cara de paciência tem. Entre uma fiada de conversa e outra, descobri que a família Collor de Mello continua bastante atuante no estado, inclusive a inútil Rosane deu nome a um novo Conjunto Habitacional. Mariana, uma de nossas anjas, me contou que no interior, o voto de cabresto ainda é prática recorrente e que, para ela, a politica estraga Maceio. Nesse momento, nosso papo dá uma entristecida. Qual política podemos realizar de fora, e por fora, dessa política? Em semestre de eleições municipais, as ruas daqui são bombardeadas por carreatas de motos uniformizadas, músicas des-sincopadas e bandeiras lavadas com cores suspeitas. Sem poder escutar nada além da gritaria eleitoral, me pergunto se existe democracia num país que não sabe pedir licença para entrar. Vote Júlio, número 33! Vote Júlio! 33! 33! Vote Júlio! Beba Coca-Cola! Salvem as baleias! VOTE JÚLIO, NÚMERO 33! Manifestantes de partidos infiéis balançam cartazes com podres nomes de colarinho branco e, olhando pra este filme real, vejo um safado abuso de poder com uma rendada carranca festiva. Sinto raiva, sinto pena, sinto vergonha. No que tange o meu microcosmo, está tudo lindo, minha turnê esta bela, meus amigos estão felizes, tudo certo. Mas a fala de Mariana não sai da minha cabeça. Sim, Mariana, você tem razão. Só espero que você não largue suas aulas de dança...





sexta-feira, 25 de julho de 2008

Mudança





Entre caixas, lembranças e expectativas,
penso que
mudar de casa é como uma descamação.

Pela ação do outro,
ou do Sol,
algo se desprende,
ao som do calcanhar da morte.

Como toalha que voa do varal,
como filho que quer partir,
aquilo que não cabe mais aqui,
rompe para sorrir.

Para dar lugar,

a uma nova pele,
lisa como laço de fita,
que não sabe e não quer saber,
que aposta e quer viver,
e que se esbarrar com o espinho,
já aprendeu a cortar o
caminho.

Caminho,

entre sacos, sustos e poeira,
do antigo para o doce,
lá do outro lado da rua.
Lá.
Lá.
Lar.
Começo a sentir o cheiro da chuva.





Onde há Cultura há Paz,
Onde há Paz há Cultura!




Feliz Dia Fora do Tempo!



(Sobre este enigma, saiba mais em: http://calendariodapaz.com.br/movie02B.php )






terça-feira, 22 de julho de 2008

Da série Crescer é ... - Riso 6





Domenico volta para a escola, depois de uma semana de resguardo. Foi pego pela dengue. Quando aparece na sala, os amigos correm pra cima dele. Abraço tímido, conversa rápida, vamos brincar. Letícia fica pra trás e decide ir até a professora se abrir.

LETÍCIA
Eu também tive dengue.

PROFESSORA
Não sabia Letícia. Quando foi isso?

Letícia não responde, mas fica olhando para a professora.

PROFESSORA
Acho que você está se confundindo.

LETÍCIA
Tive sim. Na cabeça. Dois.



Da série Crescer é ... - Riso 5





Tarde de inverno, bairro da Glória, Rio de Janeiro. Na Escola Renascer, é hora da aula de Dança Criativa. Maria, a professora, se empenha na criação de imagens para as crianças, principalmente quando o assunto é o alongamento. Cordas que puxam os joelhos, pés que catam flores, pernas que alagam oceanos e, ao se debruçar para as lateral, Splashhh, mergulho fundo, deixando círculos e mais círculos de ondas intermitentes. Depois da aventura em torno de si, Maria pergunta o que a criançada encontrou no passeio marítimo.


SABRINA
Eu vi um peixe.

FLORA
Eu vi um tubarão.

THAIS
Eu vi um polvo.

MARCELA
Eu vi um fóssil.


sexta-feira, 4 de julho de 2008

ctrl+alt+del





Depois daquele dia,
Esquece o que eu falei antes.
Depois daquele dia,

Estive com o que penso ser antes,

Pensando ser,
Um dia ou outro,
todos en
tre.
Esquece.
Depois daquele dia,
Apaga tud







quarta-feira, 2 de julho de 2008

Oi?




Oi.
Oi.

Tô aqui.
Sim?
Sim.
Tá tá.
Tá tudo certo?

Oi?
Não.
Oi?
Tá demorando para descer.
Não.
Não?
Eles não tão aqui.
Tá.
Não.
Não são eles.
Sou eu?
Sim.
Sim?
Vou sim.
Vou eu, sou eu.
Tá.
Certo.
Não?
Vou sim, vou eu.
Tá.
Tá?
Tá.
Tá tudo certo.
Oi?
Não.
Não?
Não!
Já disse que sim.